Nas aldeias Guarani Itakupe e Yvy Porã, em São Paulo, uma visita técnica mostrou que transformar a realidade do saneamento exige mais do que obras: exige diálogo, respeito e construção conjunta.
Quando se fala em saneamento, é comum pensar em tubulações, reservatórios, estações de tratamento e obras de infraestrutura. Mas, em alguns territórios, a transformação começa muito antes da engenharia.
Começa pela escuta.
Foi essa a principal percepção deixada por uma visita às aldeias Guarani Itakupe e Yvy Porã, na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo. Realizada em 7 de outubro, a atividade reuniu representantes da AESabesp, do G9 Saneamento Rural, do poder público, de concessionárias, universidades e outras instituições para ouvir as comunidades, conhecer suas necessidades e discutir caminhos possíveis para melhorar as condições de vida no território.
Mais do que buscar respostas prontas, o encontro mostrou a importância de construir soluções com quem vive diariamente os desafios.
Um território especial no coração de São Paulo
A Terra Indígena Jaraguá está inserida em uma região singular.
Localizada a poucos quilômetros do centro da maior cidade do país, ela ocupa uma área de aproximadamente 532 hectares e se sobrepõe, em grande parte, ao Parque Estadual do Jaraguá, um dos importantes remanescentes de Mata Atlântica em área urbana.
É um território marcado pela presença de nascentes, vegetação nativa, animais silvestres e, sobretudo, pela história e pela cultura do povo Guarani Mbya.
Para essas comunidades, território, natureza e modo de vida estão profundamente ligados. A água, por exemplo, não é vista apenas como um recurso necessário ao abastecimento. Ela carrega um significado muito maior.
Durante um dos encontros realizados nas chamadas Casas Sagradas, uma liderança resumiu essa relação de forma simples e profunda:
“A água é produto sagrado. A nascente é produto sagrado, que fortalece o corpo e o espírito.”
A frase ajuda a compreender por que qualquer solução de saneamento nesse contexto precisa enxergar além da infraestrutura.

Ouvir antes de propor
Participaram da visita Alisson Gomes, coordenador de Inovações da AESabesp; Eliana Boa Ventura, especialista do G9 Saneamento Rural; e Eliana Kitahara, articuladora do G9 Saneamento Rural e integrante do Conselho Editorial da Revista SANEAS.
A atividade foi organizada pela Dra. Sandra Kishi, coordenadora do Programa Conexão Água do Ministério Público Federal (MPF), responsável, no âmbito do 1º Ofício, pela temática da Saúde Indígena no Brasil. Sua atuação destaca-se pela articulação intersetorial e pela busca de soluções integradas que contribuam para a melhoria da qualidade de vida dos povos originários, respeitando suas especificidades culturais e territoriais.
A proposta era simples na forma, mas profunda no significado: conhecer a realidade das aldeias, ouvir suas lideranças e contribuir para a construção de soluções sustentáveis e adequadas à cultura local.
Ao longo do dia, foram discutidos temas como abastecimento de água, energia elétrica, sistemas fotovoltaicos, conclusão da Unidade Básica de Saúde, infraestrutura e manejo de animais.
Mas talvez o elemento mais importante tenha sido o modo como essas discussões aconteceram.
As comunidades foram colocadas no centro da conversa.
Nas Casas Sagradas, lideranças formais e informais puderam expor suas preocupações, expectativas e prioridades diretamente aos representantes das instituições presentes.
Uma das falas trouxe um desejo que vai muito além da solução de um problema pontual:
“Quero fortalecer minha sabedoria e reconhecimento para melhorar a qualidade de vida do meu povo.”
Outra reforçou que nenhuma instituição conseguirá transformar essa realidade sozinha:
“Precisamos juntar a força e a energia de todos os presentes para cada um abraçar a causa e alcançar a solução.”
Quando água depende de energia — e energia depende de planejamento

As dificuldades encontradas mostram como os desafios do saneamento estão interligados.
Poços artesianos foram perfurados por projeto do Ministério dos Povos Indígenas com a UFSCAR e o Projeto Conexão Água está colaborando para que chegue Energia Elétrica ás aldeias e haja viabilidade do bombeamento da água potável aos indígenas.
Ou seja: perfurar um poço não significa, necessariamente, resolver o problema.
Para que a água chegue às famílias de forma segura e contínua, é preciso pensar no sistema como um todo.
É necessário ter energia para o bombeamento, reservação adequada, distribuição, controle da qualidade da água, manutenção e uma forma de garantir que o serviço continue funcionando ao longo dos anos.
Essa realidade levou ao MP trabalhar em mais articulações intersetoriais para que sistemas híbridos de energia possam ser instalados , com geração de energia suficiente e com modicidade tarifária nas aldeias. O uso de energia solar fotovoltaica como uma das alternativas para apoiar o funcionamento dos sistemas de abastecimento.
A possibilidade é promissora, mas também exige planejamento. Será necessário avaliar as condições locais, dimensionar corretamente os sistemas e definir a demanda de energia.
É justamente nesse ponto que a integração entre diferentes áreas se torna essencial.
Saneamento, energia, saúde e infraestrutura deixam de ser assuntos separados e passam a fazer parte de uma mesma solução.
A disposição de participar
Um dos momentos mais reveladores da visita aconteceu durante a discussão sobre a sustentabilidade dos serviços.
Uma liderança afirmou:
“Se for melhorar a qualidade de vida da família, queremos pagar. Mande os boletos que queremos pagar.”
A frase chama a atenção porque quebra alguns estereótipos.

A comunidade não está pedindo apenas que soluções sejam levadas até o território. Ela demonstra disposição para participar do processo, inclusive contribuindo com a sustentabilidade dos serviços, desde que exista qualidade e continuidade no atendimento.
Essa postura reforça uma ideia importante: participação não significa apenas ser ouvido.
Significa também compartilhar decisões, responsabilidades e, quando possível, a própria gestão das soluções.
Quando um problema coletivo vira uma dívida individual
Outro relato revelou como modelos tradicionais de prestação de serviços podem gerar situações injustas quando aplicados sem considerar a realidade local.
Em algumas áreas das aldeias, contas de energia acabam ficando vinculadas ao CPF de uma única pessoa, mesmo quando o consumo atende várias moradias.
Na prática, uma necessidade coletiva transforma-se em uma responsabilidade individual.
Segundo os relatos, uma liderança chegou a acumular uma dívida elevada em seu nome.
Situações como essa mostram que ampliar o acesso à infraestrutura não é suficiente.
É preciso pensar também em modelos de gestão e organização que façam sentido para cada comunidade.
Em territórios indígenas, soluções sustentáveis precisam respeitar não apenas as condições físicas do local, mas também a forma como as pessoas se organizam, tomam decisões e compartilham responsabilidades.
Uma visão mais ampla de saneamento
A visita revelou ainda outros desafios que, à primeira vista, poderiam parecer distantes do saneamento.
Um deles é a presença de aproximadamente 500 cães nas aldeias.
O assunto levou à discussão de ações para incentivar a adoção e a doação responsável dos animais, além da instalação de placas para combater o abandono nas proximidades do território.
O episódio mostra como saúde, ambiente e infraestrutura estão conectados.
A realidade das comunidades não é dividida em departamentos.
Água, energia, saúde, animais, habitação e organização comunitária fazem parte do mesmo cotidiano.
Talvez por isso o saneamento precise ser entendido, cada vez mais, de forma ampliada.
Não apenas como um conjunto de serviços, mas como uma base para a saúde, a dignidade, a segurança e a qualidade de vida.

Construir com, e não para
A visita às aldeias Itakupe e Yvy Porã não terminou com uma solução fechada.
E talvez esse seja justamente um de seus resultados mais importantes.
O encontro ajudou a aproximar pessoas e instituições, organizar informações, identificar desafios e abrir caminhos para novos passos.
Nesse processo, ganha destaque a importância da Consulta Livre, Prévia e Informada e da chamada escuta qualificada.
Na prática, trata-se de reconhecer que quem vive no território também possui conhecimento essencial para a construção das soluções.
É uma mudança de perspectiva.
Ouvir antes de propor. Compreender antes de decidir. Construir com a comunidade, e não apenas para a comunidade.
Essa visão dialoga diretamente com o trabalho desenvolvido pelo G9 Saneamento Rural, que busca fortalecer experiências de gestão compartilhada do saneamento em áreas rurais, isoladas, tradicionais e vulneráveis.
Transformação também é aprender a escutar
A experiência no Jaraguá deixa uma reflexão que serve não apenas para territórios indígenas, mas para todo o setor de saneamento.
A melhor solução nem sempre será a mais sofisticada.
Ela será aquela que consiga reunir conhecimento técnico, realidade local, participação das pessoas e capacidade de continuar funcionando ao longo do tempo.
Em alguns lugares, isso pode significar uma nova rede de abastecimento.
Em outros, um sistema de energia solar, um modelo diferente de gestão ou uma solução construída coletivamente.
Não existe uma fórmula única.
Existe a necessidade de compreender cada território.
A engenharia continuará sendo indispensável. Mas, diante de desafios sociais e ambientais cada vez mais complexos, ela precisa caminhar junto com sensibilidade, diálogo e capacidade de articulação.
Porque saneamento também é transformação.
Transformação da saúde.
Do ambiente.
Da qualidade de vida.
E, principalmente, da relação entre as instituições e as pessoas que vivem nos territórios.
Nas aldeias Guarani do Jaraguá, ficou uma mensagem simples e poderosa: soluções sustentáveis começam quando aprendemos a escutar.
















